Calçadas de Goiânia estão tomadas por cacas

“A maioria das pessoas não cata o cocô. Brasileiro não tem esse costume” – Célia Misiti, passeadora de cães

Placa pede para que donos recolham a caca

A placa na calçada pede para que os donos recolham a caca dos seus cachorros. Ela traz um desenho alegre e colorido, além de  oferecer gratuitamente saquinhos plásticos para que a tarefa seja realizada. Ao lado do anúncio ainda há uma lixeira, onde a sujeira pode ser depositada. Na mesma calçada, alguns passos depois, um cocô era a demonstração clara da falta de educação e de respeito com o próximo praticadas por donos de cães.

A faxineira do Residencial Salvador Dali, Divina Eterna Ferreira, responsável pela manutenção da placa, que pertence ao prédio localizado na Avenida T-15, em frente ao Parque Vaca Brava, conta que este tipo de situação é muito comum. “Na maioria das vezes as pessoas não respeitam o pedido da placa e nem se dão ao trabalho de pegar um saquinho para catar o cocô. É muito normal eu ir até lá trocar o saco da lixeira e me deparar com um cocô bem ao lado”, fala.

Divina diz também que além de ter de limpar a calçada com frequência, ainda precisa limpar dentro do prédio, já que muitas pessoas acabam pisando na sujeira e levando para dentro. “As pessoas que nem têm cachorro pisam no cocô e entram no prédio, e lá vou eu fazer a limpeza”, declara.

A atitude tomada pelos administradores do Residencial Salvador Dali de colocar uma placa pedindo que os cocôs de cachorro sejam recolhidos pelos seus donos também tem sido frequente em outros prédios de Goiânia, principalmente no Setor Bueno. Hugo Vieira Santos, porteiro de um edifício da Rua T-64, conta que a plaquinha colocada na calçada foi roubada há alguns dias. “A placa não tinha valor nenhum, não entendo por que roubaram”, disse.

Hugo relata que mesmo com a placa na calçada ainda acontecia de pessoas ignorarem o pedido e deixarem a sujeiras dos seus cães no meio do caminho. “Eu acho muito desagradável isso. As pessoas pisam no cocô e depois precisam entrar no ônibus, por exemplo. É péssimo”, destaca.

Consciência

Célia Misiti, de 42 anos, tem uma profissão diferente. “Sou passeadora de cachorros. Passeio com os cães de quem não pode fazer isso por algum motivo”, conta. Além de andar com os cachorros dos outros, Célia também tem os seus animais de estimação. “Tenho três cães de grande porte”.

Célia mora no Setor Nova Suíça e costuma passear com os cachorros na Praça Dona Irene Machado, na Rua C-264, no bairro, sempre carregando consigo seu pega-caca, uma caixinha de plástico de onde ela retira saquinhos plásticos para limpar a sujeira dos cães. “Quando não tenho um pega-caca uso sacolinhas de supermercado mesmo. Limpo o cocô dos meus cachorros e às vezes acabo limpando dos outros também”, diz.

Por andar sempre na praça, Célia costuma observar as outras pessoas que também levam seus animais para o local. “A maioria das pessoas não cata o cocô. O brasileiro realmente não tem esse costume. As pessoas acham que praças e calçadas são banheiros de cachorros. Eu acho que limpar é uma questão de cidadania e respeito com ou outro”, salienta.

A passeadora revela que vive recebendo cara feia das pessoas que fazem caminhada na praça porque acham que por ela estar com cães é responsável pela grande quantidade de cocôs que existe no local. “As pessoas generalizam muito. Acham que eu faço parte do grupo que não limpa. Já precisei sair com seis cachorros de uma vez e limpei a caca de todos eles”.

Célia conta que também recebe parabéns quando algumas pessoas a vêem catando os cocôs. “As pessoas me elogiam, mas acho que não faço mais do que minha obrigação”, afirma.

Pet shop

O que não faltam são opções e quem incentive a limpeza dos cocôs de cachorro. Um dos pet-shops mais frequentados do Setor Nova Suíça, o Via Pet, costuma oferecer de brinde para os clientes um saco plástico próprio para quem passeia com cães limpar a sujeira dos animais. O brinde traz a seguinte mensagem: “Dicas para um amanhã melhor. Passeie com seu cãozinho e deixe a cidade limpa”.

Uma das vendedoras da loja conta que nem todo mundo que faz compras do pet shop leva a sacolinha pra casa. “A gente tem que ficar oferecendo”, diz. A loja também vende vários modelos de pega-caca. O modelo mais barato custa R$ 18 e o preço do refil com 30 saquinhos sai por R$ 12. Caso o preço seja pesado para o orçamento, o que não falta por aí são saquinhos de supermercado, que depois de usados para limpar cacas, devem ser jogados no lixo mais próximo e nunca dentro de bueiros ou bocas de lobo.

Camila Blumenschein