Garotinho: “Vale Tudo” na dramaturgia política carioca

O histórico de roubalheira e ostentação dos casais Eduardo Cunha-Cláudia Cruz, Anthony Garotinho-Rosinha Garotinho e Sérgio Cabral-Adriana Ancelmo renderia um enredo digno do sucesso do folhetim da década de 1980

Jogo Limpo com Rodrigo Czepak

Garotinho foi preso por envolvimento em suspeita de compra de votos | Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Garotinho foi preso por envolvimento em suspeita de compra de votos | Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Idealizadores da cena antológica em que o bandido Marco Aurélio (Reginaldo Faria) dá uma banana ao Brasil no momento da fuga para o exterior, os escritores da novela “Vale Tudo”, Gilberto Braga e Aguinaldo Silva, jamais imaginariam que agentes políticos no futuro conseguiriam ser mais nocivos e criativos do que seus personagens.

O histórico de roubalheira e ostentação dos casais Eduardo Cunha-Cláudia Cruz, Anthony Garotinho-Rosinha Garotinho e Sérgio Cabral-Adriana Ancelmo renderia um enredo digno do sucesso do folhetim da década de 1980. Contrariando a ficção, entretanto, com um inesperado desfecho atrás das grades.

Expressão psicopata

A estatueta do Oscar seria pouco para premiar interpretações tão dissimuladas. O casal Cunha leva ligeira vantagem pela exposição prolongada. Eduardo com sua expressão de psicopata, garantindo a licitude dos milhões desviados do erário público, e Cláudia afirmando desconhecer a origem da fortuna gasta em futilidades. O casal Garotinho com seus chiliques em blogs, coletivas e hospitais – nesse último episódio contando com a participação de uma coadjuvante, a filha Clarissa. E, por último, o casal Cabral recebendo menção honrosa pela arte de receber propinas tão polpudas e mesmo assim dividir com um elenco de notáveis.

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A sequência de roubalheiras promovida por agentes públicos cariocas deixaria qualquer roteirista sem chão. A safra é uma das piores da história política recente, longe de afirmar que não existam outras semelhantes país afora. Sem saída, o eleitor do Estado do Rio de Janeiro será obrigado a continuar tentando encontrar uma alternativa em meio ao caos instalado não só nas finanças, mas na autoestima da população. E 2018 está logo ali.

O problema é que o carioca, por natureza, tem o hábito de ironizar e satirizar o seu próprio infortúnio. Ninguém ousaria duvidar da eleição do ator Wagner Moura, o capitão Nascimento do filme “Tropa de Elite”, utilizando a bandeira da caça aos políticos corruptos. O mais difícil, nesse caso, seria convencer o protagonista a aceitar o desafio. Depois da eleição do republicano Donald Trump nos Estados Unidos – sem qualquer comparação com os princípios de Wagner Moura – alguém duvida de qualquer cenário ambientado na perplexa Cidade Maravilhosa?

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