“Não imaginava ser líder religioso”

Em entrevista ao jornalista Guilherme Coelho, Padre Zezão conta que foi namorador na adolescência e que só aprendeu a ler e a escrever aos 19 anos. Depois entrou para o seminário e decidiu ser religioso. Diz ainda que sonha em cantar numa orquestra, cobra união dos moradores do Jardim América e se mostra revoltado com tantos escândalos na política.

Você já ouviu falar do Padre José Gonçalves Pinheiro? Acho que não, né! Pois bem, eu também nunca tinha visto falar neste moço. Apenas familiares o conhecem por este nome. Refiro-me ao Padre Zezão, um dos líderes religiosos mais populares de Goiânia, que no próximo dia 31 de agosto, completa 19 anos de ordenação sacerdotal.

Padre Zezão, sempre muito alegre e usando boina, falou sobre sua vida, música, namoro e política. Em bate papo muito descontraído, ele revelou que aprendeu a ler e escrever aos 19 anos de idade. Disse que entrou para o seminário não com a intenção de ser padre. “Meu intuito era estudar, ter uma formação. Não imaginava ser líder religioso”, afirmou Zezão. A vocação para ser padre veio anos depois que entrou para o seminário.

Antes de entrar para igreja, Padre Zezão, 55 anos, apostou em outras profissões. Tentou ser militar, motorista particular, representante comercial, músico de rua, mas nada dava certo. “Não conseguia me identificar com as profissões. Até que um dia resolvi perguntar a Deus o que Ele queria de mim. Então, o Pai Celestial respondeu: quero você padre”, declarou.

Zezão afirmou que foi muito namorador. “Ausentei-me um ano do seminário. Nesse tempo que fiquei fora queria saber se minha vocação era ser padre ou não”, relatou, enfatizando que ficou quase 12 meses sem frequentar a igreja. “Eu queria criar um obstáculo entre eu e minha vocação. Procurei viver outras coisas da vida para ter certeza sobre qual era o meu caminho”, afirmou.

Na adolescência, ele chegou a ter quatro namoradas. “Nos bailes, de vez enquanto, uma se cruzava com a outra e dava um problemão pra mim. Eu era metido a galã, gostava de namorar”, garantiu. Na época, como ele trabalha na roça, suas mãos eram grossas e cheias de calos provocados pelo trabalho árduo com a enxada. “No sábado, eu e meus colegas íamos pra beira do córrego passar pedra na mão pra tirar os calos. A palma das nossas mãos ficava limpinha e lisa de tanto esfregar”, declarou sorrindo.

Padre Zezão era um jovem vaidoso. Gostava de usar bons sapatos, perfume e dançar. “Como eu era bom de dança ficava mais fácil para conquistar as moças”, relatou.

No seminário, Padre Zezão teve a oportunidade de cursar Filosofia. “O curso me deixou em uma situação inquieta. Propiciou uma reviravolta no meu modo de pensar e ver as coisas”.

Zezão sempre gostou de cantar músicas eruditas e clássicas. Em 1983, foi convidado pela direção do Palácio das Artes, quando morava em Belo Horizonte (MG), para fazer alguns testes. “Uma professora me viu cantando e disse que eu tinha dom pra ser um segundo Pavarotti. Fiquei feliz demais, mas também fiquei em uma encruzilhada. Ou seguiria a carreira de artista ou continuava a minha vocação. Só que nesta época eu não me atentei que eu poderia fazer as duas coisas. No final, optei pelo caminho da igreja”, revelou.

Zezão tem três sonhos na vida. Dois foram realizados – gravar um CD e ser cantor reconhecido -, mas ele ainda busca realizar seu terceiro e último sonho. “Ainda não realizei meu maior sonho”, relatou emocionado. “Gostaria muito de um dia poder cantar com uma orquestra sinfônica, interpretando Pavarotti ou Andrea Bocelli. Espero não morrer sem realizar este sonho”, declarou.

Padre Zezão está há um ano na Paróquia São Sebastião, no Jardim América. Antes, estava na Paróquia São José, em Vianópolis, onde ficou quatro meses. Mas sua maior experiência foi à frente Igreja São Pedro e Santa Luzia, localizada no Setor Gentil Meireles. Lá liderou por sete anos.

Jardim América

Sobre o Jardim América, Padre Zezão disse que o setor é perigoso e acredita que o maior problema do bairro seja a falta de segurança. Ele relatou que a falta de união dos moradores contribui para o aumento da criminalidade. “As pessoas querem viver individualmente. A segurança se dá em união com a comunidade e a polícia. Ainda não podemos dizer que o Jardim América é uma comunidade. Temos sim um bairro com interesses individuais e vários segmentos religiosos. Deveríamos ter uma integração entre as igrejas, entre os comerciantes, não somos unidos”, afirmou Zezão, destacando que o Jardim América tem muito boteco, o que acaba, segundo ele, aumentando a violência na região.

Ele relatou que o setor e bairros vizinhos não têm representante político.  “Não há um vereador que nos represente. A região não tem um líder comunitário que tenha interesse em lutar pela melhoria dos setores”, afirmou indignado.

Revolta

Zezão se mostra revoltado com tantos escândalos na política. “O que mais me incomoda é que ninguém é preso. A impunidade é a pior coisa que existe. Na indonésia um brasileiro foi condenado a pena de morte por trafico de drogas. No Brasil, o cara rouba e mata e não acontece nada com ele. A lei nossa é ultrapassada”, assegurou.

Recentemente, padre Zezão foi convidado por um deputado do PSD para almoçar com o governador Marconi Perillo. Ele rejeitou o convite. “Não tenho nada contra o governador, mas senti que este deputado queria me usar para se promover. Ele dizia que o governador ia arrumar dinheiro pra igreja. Governo não tem que dá dinheiro pra igreja. Acho isso errado demais”, argumentou.

Indagado sobre as eleições em Goiânia ele foi categórico ao dizer que o prefeito Paulo Garcia, do PT, está em vantagem na corrida eleitoral. “Dificilmente ele perde a reeleição. Faz boa administração”. Perguntado que nota ele daria ao prefeito de 1 a 10, ele respondeu: “Paulo merece oito”.