Santeira de mão cheia

É no ateliê improvisado na sacada do seu apartamento no Setor Nova Suíça, que a artista plástica Eneida Thomé Mendonça, de 51 anos, passa horas esculpindo, restaurando e pintando  santos.  “Adoro o que faço. O trabalho com a argila e a pintura afasta o estresse, acalma. É muito prazeroso”, diz.

Eneida conta que desde adolescente sempre gostou de trabalhos manuais. “É uma herança da minha mãe”, declara. Quando seus dois filhos ainda eram pequenos, a santeira iniciou o curso de Artes Plásticas na Universidade Federal de Goiás (UFG) para começar a colocar em prática o desejo antigo.

Com dificuldades para encontrar tempo para cuidar das crianças ela acabou desistindo do curso. “Desisti do curso, mas não das artes”, conta. Com os filhos maiores, Eneida fez um curso de pintura em tela, onde aprendeu também a técnica de pintura em argila. “Eu comprava as peças prontas e pintava, até que o escultor que fazia as imagens morreu e eu senti que não precisava ficar dependente, que poderia fazer minhas próprias esculturas”, lembra.

Foi quando ela procurou um professor especialista em esculturas em argila e conheceu o artista Cleider de Souza, famoso em Goiânia pelo seu trabalho. “Fiz o curso de escultura com ele durante oito anos e me apaixonei”, declara. Eneida se especializou no trabalho com santos porque, segundo ela, são figuras significativas, bonitas e que têm muito apelo hoje em dia.

Depois de três anos de curso, a artista plástica montou o seu ateliê num cantinho no seu apartamento e começou a fazer suas peças, que fizeram sucesso entre seus conhecidos. Assim, ela começou a vender os seus trabalhos. “Fazer esculturas é hoje minha profissão. É também um hobby. Esqueço o mundo quando estou trabalhando e tem vezes que fico o dia todo mexendo com os meus santos”, relata.

O trabalho tem início com a argila molhada. “Primeiro eu subo a peça, ou seja, vou esculpir a imagem”, explica. Depois de pronta, é preciso deixar a obra secando por 10 dias. Eneida terceiriza um forno para queimar as peças, já que ela não tem como ter um em casa. “Depois de queimada eu ainda restauro a peça, pois se ela não estiver muito seca, pode trincar”, completa.

Peça restaurada, a artista inicia o processo de pintura. A obra é lixada, recebe massa corrida e a laca dourada, espécie de resina responsável pelo efeito dourado das peças e que dá maior resistência a elas. “Depois vou pintar e dar acabamento com pedraria e passamanaria”, esclarece. Passamanaria é uma técnica de aplicação de rendas nos santos, que conforme Eneida, ela mesma introduziu nos seus trabalhos.

Para a criação dos seus santos, Eneida conta que é preciso estudar sobre os detalhes de cada um. Ela possui livros sobre os santos e também acessa a internet quando necessário. A Nossa Senhora Aparecida é o carro-chefe da santeira. “Basta fazer para vender”, conta. São Francisco e Nossa Senhora das Graças também estão entre os preferidos da artista, que trabalha com esquema de encomendas. “As pessoas me pedem um santo, eu faço e entrego em cerca de um mês e meio. Também tenho algumas peças que costumo estocar em casa”, ressalta.

O santo que mais dá trabalho para fazer, segundo a artista, é o Santo Expedito. “Ano passado tive muitos pedidos dele, o santo das causas impossíveis. Ele é complicado de fazer porque tem muitos detalhes. É preciso ter noção de anatomia para fazer as pernas dele. Ele também possui muitos detalhes na roupa”, destaca.

De trabalhos feitos por ela mesma, Eneida possui apenas um, que diz ser seu xodó, um São Francisco ao lado da imagem do seu cachorro da raça boxer, que morreu no final do ano passado. “Eu fiz essa peça pouco tempo antes do meu cachorro morrer. Este trabalho tem um significado muito grande pra mim. São Francisco é o protetor dos animais”, conta.

Eneida também trabalha com imagens que saem da linha católica como a Iemanjá, que ela fez por encomenda recentemente. Os estilos que a santeira segue é o barroco e o moderno. Ela já expôs peças em bazares no Castro’s Hotel e no Shopping e Buena Vista e atualmente, tem trabalhos expostos na Época Decorações.

Camila Blumenschein