Leandro de Castro
Divino Antônio do Nascimento, 50 anos e 35 deles dedicados ao campo, à lavoura e ao cultivo de hortaliças.
O agricultor integra uma extensa e produtiva lista de homens e mulheres que atuam na agricultura familiar, pessoas simples, em sua grande maioria proprietárias de pequenas propriedades rurais, mas que através do esforço, amor pela terra e visão empreendedora, têm contribuído de forma efetiva para o fortalecimento do agro, para a geração de empregos e, principalmente, para a segurança alimentar de milhares de brasileiros.
Presentes em todos os biomas do país, a agricultura familiar ocupa hoje uma extensão de 80,9 milhões de hectares, o que representa 23% da área total dos estabelecimentos agropecuários brasileiros.
De acordo com levantamento do último Censo Agropecuário, realizado em mais de 5 milhões de propriedades rurais de todo o Brasil, 77% dos estabelecimentos agrícolas do país foram classificados como de agricultura familiar.
Ainda segundo as estatísticas, a agricultura familiar emprega mais de 10 milhões de pessoas, o que corresponde a 67% do total de trabalhadores que atuam na agropecuária, sendo, assim, responsável pela renda de 40% da população economicamente ativa.
Números expressivos e que comprovam a força e o protagonismo do campo para o desenvolvimento socioeconômico do país e sobretudo, para a evolução da sociedade.
Agricultura familiar se destaca em 7 categorias
Caracterizada por diversos segmentos, a agricultura familiar se destaca, em especial, pela produção de milho, mandioca, pecuária leiteira, feijão, cana, arroz, fruticulturas e hortaliças, sendo esta última a atividade principal do agricultor Divino Antônio, proprietário de um estabelecimento rural no município de Leopoldo de Bulhões, em Goiás.
Atuando no campo há 35 anos, o agricultor destaca que o cultivo de hortaliças é a principal fonte de renda e subsistência da sua família e que almeja avançar no cultivo.
“Trabalho na lavoura desde a minha juventude e é que com a produção no campo que consigo manter a casa e gerar renda para minha família. Hoje trabalhamos em quatro pessoas com a produção de vagem, berinjela, pepino, pimentão e couve e toda a produção é comercializada na região e também no Ceasa. Nossa intenção para o futuro é avançar ainda mais na produção”, disse.

Com a lavoura distribuída em um alqueire de terra, Divino Antônio se enquadra na Política Nacional de Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais – Lei n° 11.326, de 24 de julho de 2006, conhecida como a Lei da Agricultura Familiar.
Segundo o agricultor, com o cultivo em 4,84 hectares, é possível colher, mensalmente, mais de trezentas caixas de hortaliças que são comercializadas, principalmente, na região Metropolitana de Goiânia.
“Hoje nós plantamos em um alqueire, o que dá para colher entre trezentas e quatrocentas caixas de hortaliças por mês. Nossa vontade é comprar um trator bom, uma máquina nova e também buscar mais conhecimento para que a gente consiga aumentar a produção e fazer com que os produtos que produzimos aqui possam ir ainda mais longe e chegar na mesa de mais pessoas. Vamos trabalhar para isso”, acrescenta.

A realidade do agricultor Divino Antônio é também a realidade de milhares de pequenos agricultores espalhados por todo o país, profissionais do campo que utilizam insumos da própria propriedade ou das redondezas, mão de obra própria e participação em circuitos curtos de comercialização, o que os aproxima dos princípios agroecológicos.
Além disso, muitos desses produtores também buscam aperfeiçoamento técnico, não apenas para a eficácia dos seus respectivos processos produtivos, mas, principalmente, para o aumento da rentabilidade e para o desenvolvimento sustentável.
Conhecimento e inovação
Em Goiás, os agricultores familiares têm buscado, junto ao Sistema Faeg/Senar, capacitação visando aprimorar suas cadeias produtivas, levar inovação para o campo e implantar novos processos gerenciais em suas propriedades. De acordo com o diretor de Regionais e Planejamento do Senar Goiás, Flávio Henrique, 80% dos produtores que buscam cursos e treinamentos no Senar atuam na agricultura familiar.
“Praticamente 80% dos participantes dos cursos que oferecemos no Senar Goiás são agricultores familiares e boa parte deles são atendidos pelo programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG). Com isso, temos obtido resultados altamente positivos, como o aumento da renda dos produtores, o que contribui para o fortalecimento econômico dos municípios, a permanência do homem no campo, a diminuição do êxodo rural e a garantia da manutenção dos recursos naturais para as gerações futuras”, ressalta.

Ainda segundo Flávio, a Faeg, em seus 72 anos de história e atuação, tem caminhado ao lado do produtor, levando conhecimento, inovação e capacitação a quem produz.
“Através da nossa atuação e, claro, por meio da capacidade empreendedora do produtor rural, nós temos vários exemplos de pequenos produtores que estão alcançando altíssimos índices de produtividade e a gente trabalha justamente para isso, para convencer esse profissional do campo de que ele pode ser um grande produtor dentro de uma pequena área, adotando a tecnologia de forma devida e preservando o meio ambiente”, completa.
Além das ações e cursos voltados aos agricultores familiares, a Faeg mantém ainda a Comissão de Empreendedores Rurais Familiares, que discute e socializa todos os assuntos relacionados à agricultura familiar com os representantes dessa comissão, que são indicados pelos presidentes dos Sindicatos Rurais, e o Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), que oferece cotações de vários produtos, bem como o desenvolvimento de estudos socioeconômicos.
Desafios e perspectivas da agricultura familiar
Apesar de todos os avanços e do fortalecimento do setor, a agricultura familiar ainda precisa superar desafios importantes, haja vista a sua relevante contribuição para a segurança alimentar do país.
Segundo o diretor de Assistência Técnica e Extensão Rural da Emater, Antelmo Teixeira, o acesso ao crédito e às linhas de financiamento rural estão entre as principais demandas dos agricultores familiares.
“Em nossas ações desenvolvidas em todo o estado percebemos que um dos serviços de maior interesse do público da Emater é o Programa de Crédito Rural, que somente em 2022 aplicou cerca de R$ 200 milhões em mais de 100 municípios goianos e viabilizou a maioria dos pedidos de emissão de DAPs/CAF para o acesso de agricultores familiares a políticas públicas, principalmente nas linhas dos recursos oriundos do Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf)”, sublinha.

Para Antelmo, o aporte de recursos e a viabilização de créditos são fundamentais para a independência financeira dos produtores rurais e para o fortalecimento dos processos produtivos.
“O crédito rural é um propulsor da rentabilidade, desde que tenha orientação. O produtor, decidindo contrair esse crédito de maneira orientada, com certeza irá interferir muito na sua produção e rentabilidade. Para isso, a Emater fortalece o serviço de assistência técnica e extensão rural de modo que o agricultor tenha o conhecimento necessário para aplicar o montante corretamente em sua propriedade”, evidencia.
Respaldo ao agricultor
Somente em Goiás, mais de 63% dos estabelecimentos rurais são da agricultura familiar, segundo o último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Juntos, eles respondem por um terço do PIB [Produto Interno Bruto] agropecuário goiano e produzem mais de 70% dos itens que compõem a cesta básica.
Nesse sentido, o Governo de Goiás tem implementado, por meio da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) várias ações e projetos voltados para os produtores rurais.
São exemplos os Programas de Regularização Fundiária e de Fruticultura Irrigada no Vão do Paranã, além do Goiás Social e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Por meio do Programa Estadual de Aquisição de Alimentos (PPA Goiás), por exemplo, os produtos da agricultura familiar, produzidos principalmente por assentados da reforma agrária, são adquiridos pelo Estado e disponibilizados a pessoas em situação de insegurança alimentar.
Outra iniciativa do governo estadual é o Mecaniza Campo, que visa promover a melhoria da infraestrutura rural nos municípios com a conservação de estradas vicinais e apoio à agricultura familiar.
Por meio do programa, o Estado adquire máquinas e implementos agrícolas e faz a cessão às prefeituras.

De acordo com o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Pedro Leonardo Rezende, os projetos implementados pelo Governo de Goiás têm como objetivo proporcionar desenvolvimento regional e inclusão produtiva dos agricultores.
“A determinação do governador Ronaldo Caiado é que a gente possa trazer as ações, políticas públicas que proporcionem não só a integração da agricultura familiar, como também o desenvolvimento regionalizado. Ações que nos ajudem a formar um estado com igualdade social”, concluiu.
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