Coluna de Quadrinhos – O atrapalhado Sir Holland ganha álbum pela Jambô

As histórias medievais com frequência nos remetem a um tempo de aventuras, nobreza, batalhas épicas. E para protagonizar estes feitos, nada melhor que um cavaleiro, não é mesmo? Bem, o ilustrador e roteirista de Caxias do Sul (RS), Sandro Zamboni (ou Zambi, como é chamado), 37, não concorda muito com isso…

Zambi é o criador do personagem Sir Holland, o Bravo, um cavaleiro que tem pouco de herói e muito de atrapalhado. O lado bom é que isso faz com que o leitor sempre saia ganhando em risadas.

Com mais de dez anos de história, o personagem já apareceu em revistas, jornais e, claro, na internet. Recentemente, o “herói” teve um livro lançado na Comic Con Experience: As Aventuras de Sir Holland, o Bravo. Por isso, fomos atrás do pai do cavaleiro e fizemos uma entrevista pra lá de bacana.

Confira o que o Sandro falou:

Folha Z – Como surgiu a ideia de criar Sir Holland?

Sandro Zambi – Bom, em meados de 1999 a 2000, eu estava lendo bastante Asterix e Lucky Luke, ambos com roteiros do mestre Goscinny, e bateu a vontade de ter um personagem cômico em cenário histórico. Mas como não era um entendido de história, apenas gostava do assunto, e jogava RPG todo final de semana, pensei em puxar para a fantasia medieval, e imediatamente a memória me recordou do filme Monty Phyton – Em Busca do Cálice Sagrado (esse grupo, Monty Phyton’s Flying Circus, eram de um programa de TV de mesmo nome da Inglaterra, que era exibido na década de 1970. Eram, praticamente, os “Trapalhões” da Inglaterra). A partir daí, a imagem de um dos cavaleiros desse filme ficou marcado na minha mente, e umas alterações num rascunho inicial formaram a imagem de Sir Holland. O nome veio por ser o primeiro que apareceu… Desenhei apenas uma história de seis paginas com Holland e acabei esquecendo ele na gaveta.

O ilustrador Sandro Zambi, na Comic Con Experience com As Aventuras de Sir Holland, o Bravo
O ilustrador Sandro Zambi, na Comic Con Experience com As Aventuras de Sir Holland, o Bravo

Folha Z – Fale um pouco do personagem.

Sandro Zambi – Holland pode ser definido como o anti-herói que quer ser herói. Assim como Chapolin, de Roberto Bolaños, ele não demonstra ter os requisitos para tal ocupação. Holland é baixo, narigudo, beberrão e pouco corajoso, mas mesmo assim, deseja fazer o que é certo. Trata-se de uma metáfora a todos nós, que estamos nos esforçando para nos tornarmos melhores a cada dia, mesmo que signifique remar contra a maré.

Folha Z – Onde você começou a publicar?

Sandro Zambi – Eu trabalhava na redação do jornal O Pioneiro, de minha cidade, e o caderno de variedades que saía nos  finais de semana precisava de uma página com quadrinhos, e então começamos eu, o Iotti, criador da tirinha Radicci, e o Fábio Nienow, atualmente o editor de arte do jornal Diário de Santa Catarina, em Florianópolis, a criarmos tiras para esse espaço. Foi aí que retirei o cavaleiro narigudo do Limbo de minhas coisas e pus as primeiras tiras curtas dele em papel. A reposta foi positiva, porém tímida. Depois de um ou dois anos, a seção de quadrinhos foi encerrada para ceder o espaço para anúncios e tratei de procurar outro lugar para publicar as tiras. Foi aí que descobri o site Sobrecarga, onde tinham notícias sobre quadrinhos, cinema, séries, filmes e mais, com colunas, reviews e até algumas tiras. Entrei em contato com o autor do site, Artur Vecchi, que concordou em veicula-las no site. Durante esse período no site, recebi o convite de um dos editores da revista de RPG Dragon Slayer, que tinha visto a tirinha no Sobrecarga, para publicar na revista bimensalmente. Isso foi em 2007, e Sir Holland estreou logo na revista nº 2. Durante esse tempo, o site Sobrecarga encerrou suas atividades e a tira foi publicada na Dragon Slayer até a editora Escala encerrar a continuidade da revista. A ideia do álbum [As aventuras de Sir Holland, o Bravo ] veio de algumas conversas com Guilherme Dei Svaldi, editor-chefe da Jambô Editora, de lançarmos uma coletânea das melhores tiras do personagem. Já minha sugestão era de fazer uma HQ longa e inédita e fechamos o álbum desse jeito.

Folha Z – Você está lançando seu primeiro livro, As aventuras de Sir Holland, o Bravo. O que o leitor pode esperar deste material?

Sandro Zambi – Acho que a pergunta é “o que NÃO esperar de Holland?” (risos). Procuro criar histórias que deixem as pessoas contentes em rir e algumas que convidem os leitores a refletir também, pois encontro muitas similaridades nas injustiças dos dias atuais com as injustiças da Era Medieval. Apresentar essas alegorias críticas são minhas reflexões sobre o mundo. Quanto ao álbum, é uma história mais descompromissada e divertida, com uma aventura recheada de bons momentos cômicos. Boto fé que todos darão boas risadas com a leitura.

Folha Z – Vejo sir Holland e me lembro de Aragonés e das tirinhas que lia na infância. Haggar, o horrível, Calvin e Haroldo e até mesmo Urbano, o aposentado. Existe uma relação? Essa nostalgia boa que o personagem traz é algo intencional?

Sandro Zambi – Certamente! Formei parte da minha estrutura de humor e do traço na arte-final baseado em Calvin e Haroldo, de Bill Watterson, e no Groo, do Aragonés. Todos esses foram como escolas da HQ de humor para mim.

O humor de Sir Holland tem influências de Calvin e Haroldo, Monty Python e mais
O humor de Sir Holland tem influências de Calvin e Haroldo, Monty Python e mais

Folha Z – Qual a dificuldade de se fazer quadrinhos no Brasil?

Sandro Zambi – A relação custo/benefício é a que sinto mais. Por ser algo tão pouco investido, se acredita que trabalhar com isso é passar fome. Acrescente a isso o preconceito com os quadrinhos em si, que pessoas não-consumidoras de HQ acham que é algo para crianças, e que criança só consome coisas tolas e superficiais. Sem mencionar também o altíssimo custo em se produzir publicações em papel.

Folha Z – Como avalia o mercado?

Sandro Zambi – Felizmente, o mercado de HQs do Brasil parece finalmente ter despertado para outros gêneros, além do infantil, e que exemplos bons de empreendimento como a Turma da Mônica podem inspirar o esforço em quadrinhos para segmentos variados. Isso ainda é a ponta do iceberg, pois muito precisa ser feito. A situação econômica do Brasil atinge a todas as áreas e o mercado de quadrinhos merece uma atenção em especial por estar emergindo no atual cenário. É a hora de todos os autores de HQs arregaçarem as mangas e encarar a prancheta com mais esmero.

Folha Z – Qual o seu próximo projeto?

Sandro Zambi – Pretendo ter um álbum publicado por ano. Então, já estou preparando a segunda aventura longa de Sir Holland, além de estar trabalhando em parceria com projetos diferentes, como uma graphic novel adaptando um conto steampunk do jornalista Romeu Martins, intitulada Cidade Phantástica. O cenário é um Rio de Janeiro de 1860 retrofuturista, com a tecnologia a vapor mais eficiente. Também terei outras parcerias com quadrinhos em 2015, mas isso é assunto para outra conversa…

Folha Z – O que as histórias em quadrinhos representam para você?

Sandro Zambi – Sinto que aprendi muita coisa sobre caráter em quadrinhos de super-heróis, pois identificava as lições de meus pais sobre moralidade na honra dos personagens, na responsabilidade que têm com suas capacidades e trouxe isso para minha conduta. Me perguntava qual seria a atitude certa e, embora nem sempre tenha decidido a melhor escolha, ainda procurei pela decisão mais justa e honesta. Por isso, entendo os quadrinhos como contos ilustrados sobre valores humanos tão negligenciados hoje em dia. Acho que acabei por transmitir isso em Sir Holland, um humano tentando evoluir.

Folha Z – Gostaria de acrescentar algo?

Sandro Zambi – Primeiro, de agradecer a você pela oportunidade de comunicar-me com os leitores. Segundo, de propor a todos que lerem essa entrevista a olharem para quadrinhos de outra forma, de experimentar e desfrutar um pouco mais de uma HQ com um tema que lhe atrai, sem nunca esquecer que da(s) pessoa(s) que o produziu(ram), pois isso é mais que o trabalho de sua mão. É sua expressividade, sua alma em arte sequencial sendo entregue em papel e/ou bites.

Francisco Costa é jornalista e fã de quadrinhos – [email protected]

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