Goiás e a ditadura militar de 64; repressão e violência

Presidente João Goulart em setembro de 1961, pouco antes do início da ditadura (Foto: Reprodução)
Presidente João Goulart em setembro de 1961, pouco antes do início da ditadura (Foto: Reprodução)

Por Francisco Costa

Era madruga. O dia? 31 de março de 1964. Uma data para o povo brasileiro se lembrar. Neste exato dia o presidente legalmente constituído, João Goulart, foi derrubado e um golpe militar foi deflagrado no País.

Não houve resistência. O Brasil ficaria na mão dos militares até o ano 1985. O período, de 1964 a 1985, foi marcado por violência, repressão e ausência dos mais básicos direitos do cidadão.

Em janeiro deste ano, o deputado Tancredo Neves seria eleito o novo presidente da República. O presidente eleito faleceu e quem assumiu foi o vice, José Sarney.

Porém, o período não foi e não pode ser esquecido pelo povo brasileiro. Recentemente, o golpe completou 52 anos e muito tem sido falado sobre o assunto.

Trecho de matéria do jornal Tribuna da Luta Operária, distribuído por David Elias (clique para ver melhor)
Trecho de matéria do jornal Tribuna da Luta Operária, distribuído por David Elias (clique para ver melhor)

Goiás                            

Em Goiás, especialmente em Goiânia, a ditadura também atingiu em cheio a população. O empresário David Elias dos Santos, 52, lembra bem do período. Segundo David, na capital goiana havia uma militância estudantil muito grande. “Por isso, a ditadura mostrava em Goiânia, tanto quanto nos outros grandes centros do Brasil, sua face de repressão e violência”.

O empresário era jornaleiro voluntário do tabloide Tribuna da Luta Operária, de responsabilidade do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), entre 1979 e 1981. Dentre suas lembranças do período, as mais marcantes foram a prisão e morte do estudante Cleuber Carneiro Costa e prisão e tortura do estudante Ivo Bandeira, companheiros da época.

História trágica

Uma das histórias que marcaram a vida de David envolve a perseguição policial e prisão de um de seus amigos. “Eu e os estudantes Jordaci e Esther, parceiros da Frente de Reorganização do Movimento Estudantil Secundarista de Goiás (Fremes), distribuíamos panfletos em frente ao campus da Universidade Católica, no Setor Universário, quando certo dia a polícia nos abordou com extrema violência. Esther foi presa. Eu e Jordaci conseguimos correr, pular o muro da universidade e escapar. Ficamos até às 3h escondidos na reitoria para evitar a prisão”.

Ele conta que, após o ocorrido, durante um período, sua rotina teve de ser alterada. “Um professor me deixava na porta de casa, dava a volta no quarteirão e retornava para certificar de que eu havia entrado com segurança, devido à iminência de ser sequestrado pela própria polícia”.

Nova ditadura

Segundo ele, não há ditadura boa. “Seja a militar ou comunista”. Ele afirma que é preciso lutar para consolidar cada dia mais a democracia, não desejar o retorno dos militares. “Ter consciência política e votar no candidato certo”.

Sobre pessoas que defendem a ditadura ou que querem que aquele período se repita, David é enfático. “Há dois tipos de pessoas a favor do governo militar: a pessoa sem cultura e conhecimento da história do próprio País ou o fascista convicto”.

Para o historiador e jornalista, Carlos Eduardo Pinheiro, 32, a defesa da ditadura representa a voz de uma minoria mal-intencionada, amplificada pela falta de profundidade e desinformação de usuários de redes sociais.

Para o historiador e jornalista, Carlos Eduardo Pinheiro, 32, a defesa da ditadura representa a voz de uma minoria mal-intencionada, amplificada pela falta de profundidade e desinformação de usuários de redes sociais
Para o historiador e jornalista Carlos Eduardo Pinheiro, a defesa da ditadura representa a voz de uma minoria mal-intencionada, amplificada pela falta de profundidade e desinformação de usuários de redes sociais

Estado manchado de sangue

De acordo com o historiador, Goiás foi palco de um dos momentos mais sangrentos da ditadura militar no Brasil. “Radicais de esquerda agrupados por uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB), sob o nome de PCdoB, então na ilegalidade, partiram para a região do Bico do Papagaio, na fronteira entre Pará, Maranhão e Goiás para a luta armada contra o governo militar”.

Ele explica que, para conter os guerrilheiros, os militares fizeram três campanhas, com pelo menos dez mil homens. O saldo final foi de pelo menos 70 desaparecidos. “Além disso, Goiás era visto pelos próprios militares como região estratégica no País. É importante destacar também a figura política de José Porfírio, o primeiro líder camponês eleito pelo PCdoB, em 1962. Com o golpe, ele entrou na clandestinidade. Foi preso em 1972, interrogado no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), em Brasília, e liberado. Depois desapareceu…”

De lá pra cá

Apesar dos inegáveis avanços democráticos, com fortalecimento das instituições e eleições democráticas bem realizadas e pluripartidarista, Carlos Eduardo ressalta que não se pode esquecer que a Polícia Militar está cada vez mais forte e central na sociedade brasileira, com o discurso militarista e intolerante, com respaldo das autoridades. “Nesse ponto não houve de fato ruptura com a ditadura militar”.

Segundo ele, ainda é possível ver resquícios do regime na maneira como a PM trata a população pobre do País, com prática de tortura e desaparecimentos. “A Comissão da Verdade pode sanar essa falta de ruptura, com o levantamento de dados de desaparecidos e torturados e punições destes. Pode ser o começo do fim da Polícia Militar. Há muito que fazer”, conclui.

Períodos da ditadura

Governo Castello Branco (1964-1967)
Governo Costa e Silva (1967-1969)
Governo da Junta Militar (31/8/1969-30/10/1969)
Governo Medici (1969-1974)
Governo Geisel (1974-1979)
Governo Figueiredo (1979-1985)

Acompanhe o Folha Z no Facebook, Instagram e Twitter

Comentários do Facebook