O trem continua fora dos trilhos

Não são de hoje os desmandos e desvios da Norte-Sul, cujas obras tiveram início em 1987 e continuam sem conclusão em vários trechos.  Já se vão 25 anos e desde que foi retomada, em 2007, no segundo mandato do presidente Lula, a União gastou R$ 6 bilhões. Todo esse dinheiro foi insuficiente para torná-la realidade.

Em Anápolis, as obras pararam a menos de 500 metros do porto seco da cidade
Em Anápolis, as obras pararam a menos de 500 metros do porto seco da cidade

Projetada para promover a integração nacional, minimizando custos de transporte e interligando as várias regiões do País por meio de suas conexões com ferrovias novas e outras já existentes, a Ferrovia Norte-Sul (FNS) continua um trem descarrilado, que tem dado dor de cabeça a algumas autoridades e alguns órgãos governamentais, além de prejuízos incalculáveis à União. Ela também tem proporcionado muita grana a empresários e construtoras corruptos, que não hesitam diante do patrimônio público.

Não são de hoje os desmandos e desvios da Norte-Sul, cujas obras tiveram início em 1987, durante o governo de José Sarney, e continuam sem conclusão em vários trechos.  Já se vão 25 anos e… desde que foi retomada, em 2007, no segundo mandato do presidente Lula, após quase duas décadas de total abandono, a União gastou R$ 6 bilhões. Todo esse dinheiro foi insuficiente para torná-la realidade. Embora tecnicamente próxima da conclusão, a ferrovia que incorporou mais dois trechos, estendendo-se até Barcarena (PI) e Panorama (SP), precisa de revisão em diferentes partes, sobretudo em terras goianas.

Estragos da corrupção       

No trecho próximo a Uruaçu, por exemplo, é fácil observar os estragos da corrupção antes e depois da interdição.  O mato toma conta e as enxurradas das chuvas levaram terra e cascalho, deixando em algumas partes trilhos levitando sobre o leito da ferrovia. Há também risco ao meio ambiente e à segurança urbana gerados pelos canteiros abandonados. A linha nova, com modernos dormentes de concreto, grafados com as marcas Valec e Constran (construtora contratada), e trilhos importados que enferrujam com a falta de atividade, revelam o descuido em volta.

Com isso, avolumam-se os problemas e suas consequências negativas. Cargas deixam de ser transportadas, há perdas por causa dos impostos não recolhidos e o governo federal deixa de arrecadar cerca de RS 20 bilhões por ano, segundo informações da própria empresa responsável pelas obras, a Valec.

Mudanças      

O traçado inicial previa a construção de 1.550 km, indo de Açailândia (MA) a Anápolis (GO), passando ainda pelo Tocantins. Com as mudanças de curso e percurso, o projeto prevê agora 4.575 km de trilhos, passando por nove estados e indo do Maranhão a São Paulo.   Até agora pouco mais de 1.500 quilômetros foram totalmente construídos. Entre Palmas, no Tocantins e Anápolis, em Goiás, 95% da obra está praticamente pronta, mas a ligação não está completa. Oito pátios projetados para manobras ou descarregarem ainda não saíram do papel.

Juquinha chefiou a empresa desde o começo da gestão petista tendo tido salto espetacular no patrimônio
Juquinha chefiou a empresa desde o começo da gestão petista tendo tido salto espetacular no patrimônio

Juquinha

Com as paralisações sofridas em virtude de escândalos de corrupção desde a primeira licitação, em 1987, no governo Sarney, ou de trâmites burocráticos, a obra sofreu um último baque em julho do ano passado. Foi quando o engenheiro e político goiano José Francisco das Neves, o Juquinha, ex-presidente da Valec Engenharia, estatal responsável pela construção da ferrovia, chegou a ser preso pela Polícia Federal, na operação Trem Pagador.

Ele chefiou a empresa desde o começo da gestão petista, em 2003, tendo tido salto espetacular no patrimônio. Segundo a Revista ISTOÉ, o rombo teria chegado à cifra de R$ 1 bilhão. Esse dinheiro teria abastecido não apenas as contas bancárias de Juquinha como de familares e ex-integrantes da Valec, além de caixa de partidos como o PR e o PMDB.

Presidida agora por José Castello Branco, a Valec confirmou recentemente que a ferrovia não será mais inaugurada em julho como estava previsto. O prazo, segundo o dirigente, estendeu-se para setembro deste ano. Ele culpa a gestão anterior pelos problemas atuais. “A direção anterior privilegiou o lançamento dos trilhos, ficando pendentes obras de drenagem e proteção vegetal,” informou José Castello Branco a reportagem da Folha de S. Paulo.

Território goiano

No início do mês, o governador Marconi Perillo esteve com a presidente Dilma Rousseff e com o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, e novamente acendeu-se a esperança de que a Ferrovia Norte-Sul volte aos trilhos e seja finalmente concluída, pelo menos em território goiano, dentro do previsto pela Valec. Em Anápolis, as obras pararam a menos de 500 metros do porto seco da cidade.

O governador teve a garantia do ministro de que os entraves jurídicos referentes às licenças ambientais, desapropriações e complementações de projetos executivos já foram superados. Paulo Sérgio Passos assegurou ainda a Marconi Perillo que os questionamentos feitos pelo Tribunal de Contas da União (TCU) quanto à licitação do trecho entre o túnel de Anápolis e o pátio do porto seco não existem mais.

Carlos César Ibiapino / Especial pro Folha Z

 

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