Com raízes do Cerrado, mãos mantêm viva a cultura goiana com cooperativismo

Maria do Cerrado expõe suas peças artesanais produzidas com elementos do Cerrado. Foto: Wesley Costa.
Maria do Cerrado expõe suas peças artesanais produzidas com elementos do Cerrado | Registro feito pelo fotógrafo Wesley Costa
  • Por Nielton Soares

Ao descobrir o talento para o artesanato, Maria da Silva Oliveira, a Maria do Cerrado, de 61 anos, entendeu desde o início que o trabalho coletivo era um meio de seguir com o que mais gosta de fazer: artesanato.

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Há mais de 30 anos, ela transforma cascas de árvores e sementes do Cerrado em peças de arte.

Maria do Cerrado lembra dos desafios atuais e do passado, mas garante que o trabalho coletivo sempre foi um diferencial para alavancar os negócios.

“Fazer parte de uma cooperativa é muito importante, porque a cooperativa não é uma empresa separada que só visa o lucro só para uma pessoa. O lucro é dividido entre todos os cooperados. Então, a importância da cooperativa, hoje, é exatamente isso”, compreende.

De fabricante de chaves a artesã

Maria do Cerrado relata que o 1º contato com o artesanato ocorreu quando ela foi apresentar os quadros desenhados e pintados pelo filho para um grupo de artesãos.

Embora, antes disso, teve contato com a arte por meio do pai e avô, que manualmente trabalhavam com peças de argilas.

“Eu fui lá com os quadros do meu filho debaixo do braço para mostrar para o pessoal que meu filho fazia arte. Eu já gostava de arte também. Acho que foi só um passinho que precisei dar, naquela época, em 1997, para eu começar a trabalhar”, recorda.

Após esse 1º contato, ela começou a trabalhar na fabricação de chaves e de colares de prata.

Técnica que aprimorou para usar material do Cerrado na confecção de suas peças.

Atualmente, Maria do Cerrado expõe seu trabalho em loja colaborativa no shopping Bougainville.

Integrante da cooperativa de artesãos Cartago, ela também participa da Feira do Cerrado, em eventos que ocorrem em Goiás e em outros estados.

Foi na loja do shopping que Maria Júlia de Morais conheceu o artesanato de Maria do Cerrado e se encantou.

“As peças sempre me chamaram a atenção pela exuberância, pelo colorido e pela beleza do trabalho artesanal. São peças que encantam pela originalidade e pela riqueza de detalhes”, salientou.

Recentemente, Maria do Cerrado participou de um encontro realizado pela Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, em Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros. De acordo com ela, esse é um dos inúmeros eventos que o cooperativismo proporciona.

Entre uma venda e outra, Maria do Cerrado monta seus colares com pedaços de materiais coletados no Cerrado. Registro feito pelo fotógrafo Wesley Costa

Da produção à exposição

A confecção das peças consiste na seleção e coleta da matéria-prima, que tem o Cerrado como fonte desses recursos, que, conforme a artesã, estão cada vez mais escassos.

  • Além disso, não é permitida a exploração em áreas de conservação.

Depois da coleta, as próximas etapas são a limpeza, a pintura e a montagem das peças, que demandam horas de trabalho. Depois de prontas, vem a venda no varejo.

  • Mas o desafio para ela é a valorização dessa tradição pela população.

“Nós precisamos realmente focar nas pessoas dentro da cidade de Goiânia para que elas realmente consumam diretamente o artesanato”, espera.

Maria Júlia exibe peças confeccionadas por Maria do Cerrado. Crédito: Arquivo pessoal

Maria Júlia exibe peças confeccionadas por Maria do Cerrado | Registro Arquivo Pessoal

Das cinzas aos fios: o bordado que transformou o luto em luta

Idealizadora e cofundadora da Cooperativa Bordana, Celma Grace de Oliveira encontrou no artesanato o caminho de reconstrução da própria vida.

Ela revela que foi em meio à dor pela perda da filha que se uniu a outras mulheres na arte de bordar.

“Foi através desse coletivo que eu pude me reerguer. Profissionalmente e financeiramente, a cooperativa me proporcionou realizar muitos sonhos: viagens, me especializei, fiz meu MBA em Gestão de Pessoas e Liderança, e continuo me desenvolvendo”, comenta.

Geógrafa de formação, Celma Grace passou a levar as belezas do Cerrado, como ipês, buritis, lobos-guará e araras, para a arte e como forma de ativismo e de educação ambiental.

“Nós acreditamos que as pessoas só preservam aquilo que conhecem e valorizam”, diz.

Ela define sua trajetória de vida como a da flor canela-de-ema, que é conhecida como a ‘fênix do Cerrado’.

Essa planta é conhecida por resistir aos incêndios mais devastadores que atingem o Cerrado nos períodos de estiagem.

Após ser atingida pelo fogo, o tronco da espécie fica completamente carbonizado e a paisagem ao redor parece não ter mais vida.

Mas é das cinzas e da terra queimada que ela encontra força para brotar novamente flores vibrantes.

“Essa é exatamente a história da minha vida e da criação da Bordana. Eu enfrentei o fogo mais devastador que uma mãe pode viver. Por um tempo, parecia que só havia restado a dor e as cinzas”, compara Celma.

Arte que rompe o isolamento e preserva tradições

À frente da Cooperarte, em Morrinhos, a artesã Neires Aparecida Pires Ferreira relata que a organização coletiva abriu caminhos para artesãs, muitas delas aposentadas, participarem de feiras, viajarem, compartilharem experiências e preservarem conhecimentos tradicionais.

“Por meio de bordados, trabalhos em cabaça e atividades culturais, a cooperativa contribui para manter viva a memória da comunidade e os saberes transmitidos entre gerações”, pontua.

Ela reconhece que os desafios enfrentados pelas cooperativas artesanais são ainda maiores quando administradas por mulheres, especialmente no interior do estado.

Segundo ela, a falta de recursos financeiros e de profissionais capacitados dificulta a gestão e a comercialização dos produtos.

Apesar dessas dificuldades, de acordo com ela, a experiência coletiva tem proporcionado mudanças significativas na vida das cooperadas.

“Muitas mulheres que antes permaneciam em casa, algumas enfrentando situações de isolamento e depressão, encontraram no artesanato uma oportunidade de convivência, aprendizado e valorização pessoal.”

70 anos de cooperativismo: entre conquistas e desafios

O apoio para superar esses gargalos é do Sistema OCB-GO e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Para o presidente do Sistema OCB-GO, Luís Alberto Pereira, o modelo cooperativista permite que os produtores ganhem competitividade e consigam melhores condições de comercialização, o que reduz as desigualdades e promove o desenvolvimento regional.

“Ao longo de seus 70 anos, o cooperativismo goiano contribuiu para organizar e fortalecer a produção de milhares de pequenos produtores, trabalhadores e empreendedores, oferecendo acesso a mercados, crédito, capacitação, assistência técnica e gestão profissional”, pontua Pereira.

Para ele, as cooperativas de artesanato desempenham um papel estratégico ao combinar inclusão produtiva, valorização cultural e desenvolvimento social.

“As cooperativas permitem que artesãs e artesãos atuem coletivamente, compartilhem conhecimentos, reduzam custos e ampliem oportunidades de comercialização”, acrescenta.

Pereira indica que muitas dessas entidades são lideradas por mulheres, que encontram no cooperativismo uma fonte de renda própria, autonomia econômica e fortalecimento da autoestima.

Ele explica que o Sistema OCB/GO atua em três frentes principais. São elas: a representação institucional, o desenvolvimento da gestão e a formação profissional.

“As cooperativas têm acesso a programas de governança, planejamento estratégico, diagnóstico organizacional, consultorias, capacitações presenciais e online, além de cursos por meio da plataforma educacional do cooperativismo, a CapacitaCoop”, exemplifica.

Outra ferramenta da instituição é o SESCOOP/GO, o qual promove treinamentos técnicos, qualificação profissional, desenvolvimento de lideranças e educação cooperativista.

  • O último levantamento da OCB-GO mostra que Goiás alcançou 710.307 cooperados e 262 cooperativas registradas.
  • O faturamento do setor, conforme os dados, foi de R$ 36,9 bilhões, com ativos superiores a R$ 78 bilhões.

“No caso dos artesãos, o cooperativismo tem sido fundamental para transformar conhecimentos tradicionais em oportunidades de geração de renda, fortalecendo a identidade cultural goiana e ampliando a visibilidade do artesanato local em mercados estaduais, nacionais e até internacionais”, indicou.

Apesar dos resultados, Luís Alberto compreende que há desafios para as cooperativas, como os de comercialização, de competitividade, de inovação e de sucessão do conhecimento para os jovens.

O presidente do Sistema OCB-GO, Luís Alberto Pereira, afirma que o cooperativismo permite aos produtores conseguir melhores condições de comercialização de seus produtos | Registro da imagem: Sistema OCBGO

Desafios de transformar artesanato em renda

Entre as dificuldades relatadas pelas artesãs está a etapa de venda, que atualmente envolve também a divulgação em redes sociais.

Nesse cenário, as profissionais apontam o Sebrae-GO como parceiro. A analista de negócios da entidade, Daniela Caixeta, conta que, desde 2021, é desenvolvido um trabalho de acompanhamento do artesanato goiano, com ações voltadas à capacitação, à gestão dos negócios, à valorização da identidade cultural e à ampliação das oportunidades de comercialização.

Conforme ela, esse trabalho coletivo representa uma alternativa importante para fortalecer o setor, embora a resistência à organização em grupos ainda seja um desafio entre os artesãos.

“Goiás, hoje, é um estado que tem um potencial de artesanato muito forte e também uma identidade cultural muito forte. A gente tem que trabalhar essa questão da identidade cultural com construtores de design. Por quê? Porque a gente tem que levar o artesanato para a valorização de uma arte”, indica.

Caixeta salienta que o cooperativismo facilita as compras, as vendas e a participação de seus membros em feiras e exposições.

“Os grupos, quando eles estão consolidados, eles possuem uma força muito maior em todas as ações. Mas a realidade nossa, hoje, no estado, é de certa dificuldade do trabalho coletivo”, lamenta.

Apesar dessas dificuldades, a analista aponta que o estado tem se destacado na participação em grandes eventos nacionais.

Artesanato goiano conquista novos mercados

Criada no período da pandemia de Covid, a Secretaria da Retomada passou a apoiar o artesanato produzido no estado, buscando ampliar os espaços de comercialização e a visibilidade dos produtos goianos.

O secretário César Moura ressalta a implantação do Goiás Feito à Mão para alavancar o setor. Neste ano, o programa realizou sua 11ª edição, com participação de artesãos, associações e cooperativas em eventos regionais e nacionais para aproximar a produção artesanal de novos consumidores.

“A importância do artesanato goiano é imensurável e esse segmento vive uma época de ouro com reconhecimento, divulgação, apoio à produção e comercialização”, disse.

Moura emenda que esse programa conseguiu ampliar o espaço e a visibilidade do artesanato feito em Goiás dentro das principais feiras nacionais e internacionais.

“Posso citar aqui os salões do artesanato de Brasília e São Paulo, a Fenearte, em Pernambuco, e a Fenacce, no Ceará. Inclusive, Goiás foi o estado líder de vendas na Fenacce, realizada em setembro, em Fortaleza”, exemplifica.

Ele frisa que o Goiás Feito à Mão é também uma porta de entrada para muitos artesãos, que tiveram sua primeira experiência comercial nas feiras do governo do estado e depois passaram a integrar eventos nacionais.

“Essa expansão fortalece a geração de renda, favorece a continuidade dos saberes entre gerações e amplia a visibilidade da diversidade e da singularidade do artesanato goiano”, entende.

O trabalho da Secretaria da Retomada acontece em parceria, por meio de editais. As iniciativas de participação em feiras são promovidas pelo Sistema OCB-GO e pelo Sebrae, mas a secretaria oferece apoio logístico, como o transporte dos produtos artesanais e o apoio com passagens e hospedagens em eventos nacionais.

Outra iniciativa é a qualificação profissional, por meio dos cursos dos Colégios Tecnológicos do Estado de Goiás (Cotec), inclusive no âmbito do Goiás Social, com ações destinadas às comunidades indígenas Bdè-Burè e Buridina, em Aruanã, que proporciona riqueza cultural e saber do feito à mão cheguem às novas gerações.

Neste ano, Moura afirma que a Secretaria da Retomada investiu bastante em espaços expositivos nos Salões do Artesanato de Brasília e São Paulo.

O secretário salientou que as vendas por artesão têm evidenciado o avanço dos negócios.

  • A média, de acordo com Moura, é de cerca de R$ 15 mil no Salão do Artesanato em Brasília, em abril; R$ 22 mil no Salão do Artesanato em São Paulo (maio); R$ 34 mil na Fenearte, em Recife (julho); e R$ 46 mil na Fenacce, em Fortaleza (setembro).

“A internacionalização representa uma perspectiva estratégica, considerando o potencial do artesanato goiano para alcançar mercados como Portugal e França, ampliando sua inserção comercial e seu reconhecimento cultural”, comenta.

Canto da primavera de 2025 – Cesar Moura, artesão José Cambota e o ex-governador Ronaldo Caiado | Imagem: Secretaria da Retomada

Entre mãos e afetos

Entre as sementes, cores e peças produzidas artesanalmente, o trabalho de Maria do Cerrado representa não apenas uma atividade econômica, mas também a preservação de conhecimentos e tradições que atravessam gerações.

Embora perceba certo desinteresse das novas gerações pelo artesanato, ela acredita que o dom que é repassado adiante superará qualquer tecnologia que não fornece autenticidade.

“Eu aconselho os jovens a aprender sempre o que o pai faz. Aquele ditado, tal pai, tal filho, isso uma hora vai chegar no DNA, na pessoa. Por mais que ele seja um advogado, doutor, sei lá, um professor, ele vai uma hora encontrar a arte dentro dele”, prevê Maria do Cerrado.

A conscientização da população e de setores do comércio, como hotéis e restaurantes, é apontada por ela como outro desafio para a divulgação do artesanato goiano.

Quem conheceu por acaso as peças artesanais, como Maria Júlia, diz que não deixa mais de adquirir as peças.

“Sou uma grande admiradora do trabalho artesanal, e as peças da Maria são um verdadeiro primor: lindas, autênticas e únicas. Valorizo muito tudo aquilo que é feito à mão, com criatividade, dedicação e amor. Sou apaixonada pelos colares, que considero peças cheias de personalidade e expressão artística”, descreve a cliente.

Maria Júlia acredita que, muitas vezes, as pessoas ainda não têm dimensão de todo o trabalho envolvido na produção artesanal.

Para tanto, ela compreende o trabalho que a confecção de cada peça exige, como tempo, criatividade, habilidade e, sobretudo, amor.

“Quando reconhecemos esse valor, entendemos que pagar um preço justo é também respeitar e valorizar o talento de quem produz”, finaliza.


 

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