Coluna de Quadrinhos – As poéticas tiras de Venes Caitano

coluna de quadrinhos“Vinte e poucos anos – depende do estado de espírito, mas normalmente não importa”. Esta foi a resposta do ilustrador e criador de tiras e charges, Wenes Caitano Marques, ou melhor, Venes Caitano, como prefere ser chamado.

Além de publicar suas tiras em diversos jornais impressos do Paraná, Ceará, Goiás, Pará, Tocantins e Minas Gerais (estado onde mora), incluindo o Folha Z, Venes é bacharel enfermeiro (não praticante) e graduando em Cinema de Animação com habilitação em Jogos Digitais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Venes afirma que foi uma criança tímida e viu no desenho a chance de externar o que não podia falar ou fazer na presença de amigos e familiares. Segundo o artista, quando criança buscava nos livros escolares ilustrações de artistas como Angeli, Laerte e mais.

Pensando no trabalho bacana do autor, convidamos o mesmo para fazer uma entrevista descontraída.

O resultado você confere a seguir:

Folha Z – Por que optou por fazer charges e tiras?

Venes – Primeiro vieram as charges. Sempre fui muito interessado por notícias e sei que o único modo de educar um cidadão faminto, que alimenta tanta inconsistência nas políticas públicas, é a educação, ou melhor, a discussão. A charge é a extensão da notícia, e jamais será gratuita, é uma forma de digestão facilitada de tudo que está sendo discutido, deixando o leitor por fazer as devidas reflexões sobre aquilo. O humor tem este incrível poder. Em 2011 comecei profissionalmente, trabalhei em um jornal em Minas Gerais e fazia charges, até o editor me pedir para modificar uma charge para não “ofender” um político “aliado” que estava sendo acusado de corrupção. Além disso, fui processado por uma assessora do mesmo, após publicar uma tira, na internet, sobre assédio moral que fiz para ilustrar uma violência que sofri enquanto funcionário público – processo em andamento. Enfim, como fiquei sem veículo impresso para publicar, passei por algumas frustrações e dúvidas. Então, me apeguei a tirinha, um produto imperecível e também ilimitado.  Em 2013, comecei a fazer tirinhas diárias para a internet, com uma abordagem mais intimista, focado no leitor e seu cotidiano: poesia e coisas além do que já havia experimentado. Debrucei sobre os versos do Mario Quintana, Rubem Alves, Manoel de Barros, Adélia Prado, Arnaldo Antunes, Emicida, Criolo e muitos outros poetas do cotidiano, cada um com sua intensidade. Não abandonei a minha capacidade crítica, e nem fui forçado a isso, só amadureci e sofri novas influências, conheci novos caminhos dentro do quadrinho: Liniers, Decur, Dino Buzzati e a nova fase do Laerte. Parece ter funcionado, tenho sido levado para várias partes do Brasil e mundo, pela internet, pelos jornais impressos, pelos livros didáticos, pelos professores que utilizam em suas aulas, por alunos que tatuaram em seus corpos, por pessoas que imprimem e colam pela cidade, enfim, estão me ouvindo e pretendo continuar falando e aprendendo.

Folha Z – Acredita que há limites para o humor (lembrando dos atentados na Charlie Hebdo)?

"Acho que não pode haver limites para se fazer humor", diz Venes
“Acho que não pode haver limites para se fazer humor”, diz Venes

Venes – Não tenho a menor dúvida, acredito piamente que no limite há humor! Isso sim!

Falando sério, acho que não pode haver limites para se fazer humor. No sentido de convenção, de imposição, creio que este limite só pode ser definido por quem propõe a provocação. Não posso dar valor financeiro ao trabalho alheio, muito menos depreciá-lo, o que me resta é não consumi-lo, simplesmente. Estúpidos que se escondem atrás de um personagem de humor para serem criminosos. Devem ser julgados por isso. Temos regras e leis a serem seguidas e que cada um assuma o que faz e arque com as consequências, porém, isso não justifica qualquer ato de violência contra quem seja.

O extremismo / fanatismo é algo que não combina com progresso, assim como a censura e a violência. O ideal seria progredirmos sem perder o humor e o amor pela discussão. Ela nos fez crescer o cérebro, por que voltaríamos a morar numa caverna que garante vida plena só após a morte?

Folha Z – De onde vem a inspiração para sempre criar suas tiras?

Venes – Falo sobre o cotidiano, ou seja, minha fonte de inspiração está em tudo e em todos, basta se localizar e começar a observação. Sempre terá alguma coisa que impressiona e merece releituras, versões e versos, por que não?

Carrego um caderno e anoto pessoas, falas, imagens… Estou sempre atento e já passei vários dias indo a locais públicos só para observar o comportamento das pessoas: praças, shoppings, feiras… Alí estão as minhas histórias, assim como os leitores. O ser humano é único, mas se repete em tantas coisas, tantas vezes, e cada vez menos se reconhecem. É nesse ponto que tento explorar mais.

Folha Z – Falando em quadrinhos. Tem algum projeto de lançar um material em sequência, uma graphic novel, ou algo do tipo?

Venes – Estou lançando meu primeiro livro: Vi-Venes Primeiro, 132 páginas, colorido. Uma coletânea com mais de 300 tiras e ainda ilustrações inéditas, além de alguns desenhos de quando eu era criança. É uma publicação independente e mérito maior da Jéssica Hissa (responsável pela edição do livro), minha namorada e comparsa em planos e desilusões. É uma excelente profissional e sabe bem do valor deste passo para mim, por isso tudo foi feito com muito cuidado e respeito a quem vai tê-lo em mãos.

Estou orgulhoso, tudo ficou muito simples e sincero, assim como um abraço, seguido de um puxão de orelha, ou vice verso! Estará disponível para compra no site, em breve, www.venes.com.br ou já pode ser adquirido pelo e-mail: [email protected] valor: R$ 39,00.

Folha Z – Em que você acha que se diferencia a linguagem de uma tira ou charge para um texto?

Venes – Na ilustração temos o poder de síntese e envolvimento visual imediato com o leitor. A vantagem é poder usar recursos mínimos, se comparado ao cinema, por exemplo, e fazer um mega cenário com luz onde quiser, visão de câmera idem, bem como efeitos especiais, usando apenas papel, tinta e pincel. O valor maior está na ideia, assim como em um texto, porém a vantagem é que uma imagem grita de imediato, o texto “segue uma linha”. É isso.

Confira algumas tiras de Venes:

o mundo tem 1

crianças o mundo tem 2 livros

Francisco Costa é jornalista e fã de quadrinhos – [email protected]

 

 

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