
Enquanto alguns empreendedores já inovam com a tecnologia, a maioria ainda enfrenta desafios para transformá-la em resultados concretos
Nielton Santos
A inteligência artificial se tornou uma oportunidade de inovação para empresas de todos os portes — grandes, médias e pequenas. Seu uso tem impulsionado avanços tecnológicos em equipamentos e serviços do cotidiano conectados na internet.
Um exemplo é o aprimoramento de leitores de adesivos instalados em veículos, que passaram a ir além do simples controle de fluxo para oferecer monitoramento avançado por IA, de acordo com divulgação da empresa.
Esse é um dos mecanismos adotados por uma nova concessionária que administra rodovias em Goiás, onde quase todo o sistema de cobrança foi automatizado com o uso de TAGs (etiquetas inteligentes).
Algo semelhante, mas aplicado ao controle de acesso, é desenvolvido por um pequeno negócio que atende condomínios residenciais em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital.
No entanto, em outras áreas, o uso da IA ainda impõe desafios que precisam ser superados por micro e pequenas empresas.
Um desses desafios é o atendimento ao cliente, que pode ser transferido para sistemas automáticos, como chatbots.
Para pequenos negócios que não contam com secretária e onde o proprietário e poucos funcionários acumulam todas as tarefas operacionais, essa automação pode ser uma solução — mas nem sempre funciona como esperado.
O empresário Humberto Chaves, do setor de Coleta de Resíduos de Serviços de Saúde, relata que testou um atendimento automatizado por IA, mas precisou suspender o uso devido a falhas.
“Num primeiro momento, o chat ajuda ao fazer um filtro do atendimento, mas chegou um momento em que a IA criou um sistema próprio de direcionamento das mensagens que não correspondia a nenhum canal da empresa”, contou.
Nesse contexto, um levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em parceria com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e o Google, divulgado em dezembro de 2025, mostrou em quais áreas os pequenos e médios empresários têm utilizado a IA.
Segundo o estudo, entre os pequenos negócios o uso da tecnologia se concentra sobretudo em marketing e divulgação — prioridade para 59% das micro e pequenas empresas e para 74% dos MEI.
Em seguida aparecem comunicação (39% e 31%, respectivamente) e análise de dados, adotada por apenas 30% das MPE e 17% dos MEI.
Por outro lado, como no exemplo citado acima, a pequena empresa que atende condomínios residenciais conseguiu transformar a IA em aliada no aperfeiçoamento de equipamentos de reconhecimento facial e na leitura de TAGs de veículos para acesso de moradores.
“A inteligência artificial hoje está embarcada em muitas coisas, inclusive no controle de acesso e no nosso sistema de WhatsApp, que usa prompts para executar ações e conversar com os clientes, no caso, os moradores”, explica Kevin Marony, proprietário da empresa.
No uso da IA, a preocupação com segurança é maior entre grandes e médias empresas, o percentual atinge 35%.
Entre as micros e pequenas, esse índice cai para 12% e 10%, respectivamente.
Quanto à facilidade de uso, 30% dos empresários de micro e pequenas empresas afirmam não ter “nenhuma dificuldade”. Já entre os microempreendedores, 23% ainda consideram a tecnologia um obstáculo por “não saber como aplicar no negócio”.
Para a pesquisadora do FGV Ibre, Anna Carolina Gouveia, o estudo evidencia que as necessidades, benefícios e desafios da IA variam conforme o porte da empresa.
Ela compara a preocupação com segurança, mais presente nas grandes e médias empresas, com as dificuldades de aplicação apontadas pelos micros e pequenos negócios, e destaca a falta de políticas públicas que promovam a inclusão desses pequenos empreendedores no uso da IA.
Na mesma linha, a líder de Parcerias da Busca do Google, Eitan Blanche, afirma que existe uma distância entre o conhecimento e a aplicação prática da tecnologia, tanto em pequenas quanto em grandes empresas.
Para reduzir essa lacuna, ela ressaltou que o Google tem desenvolvido cursos em parceria com o Sebrae, como a Imersão Empreendedora em IA, com o objetivo de ajudar pequenos negócios a evoluir no uso da ferramenta.
Em Goiás, o incentivo ao avanço da IA nos setores econômicos e no governo ganhou força com a criação do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia), sediado na Universidade Federal de Goiás (UFG). O centro é considerado um dos maiores do país em pesquisa aplicada, desenvolvimento e inovação em IA.
No segundo momento, foi instalado o Centro de Competência Embrapii em Tecnologias Imersivas Aplicadas a Mundos Virtuais (AKCIT), coordenado também pela Ceia.
Contudo, o foco desses centros ainda está voltado para soluções tecnológicas e produtos de grandes empresas ou startups. No estado, há exemplos como a Cogtive, que utiliza internet das coisas (IoT) e IA para otimizar processos industriais, aumentar produtividade e apoiar decisões em tempo real, e a Solubio, pioneira em tecnologias para produção de bioinsumos agrícolas. Além de inúmeras outras ideias em andamento, chamadas de etapas de incubação, para se lançarem ao mercado.
O desafio agora é como essas experiências podem inspirar pequenos negócios com atuação local — inclusive aqueles que estão apenas iniciando sua jornada digital.






