IA, robôs e qualificação: os caminhos da inovação na indústria goiana

Victor Freitas demonstra bancada didática que simula etapas de uma linha de produção automatizada no Instituto Senai de Tecnologia em Automação, em Goiânia | O registro fotográfico é de Wesley Costa
Victor Freitas demonstra bancada didática que simula etapas de uma linha de produção automatizada no Instituto Senai de Tecnologia em Automação, em Goiânia | O registro fotográfico é de Wesley Costa
  • Nielton Santos

Peças coloridas percorrem uma bancada que reproduz, em pequena escala, etapas de uma fábrica. Entre as esteiras, um braço robótico simula o caminho do estoque à montagem e à expedição.

No Instituto Senai de Tecnologia em Automação, em Goiânia, o analista Victor Fideles Freitas demonstra como máquinas e sistemas conectados organizam a produção a partir de um pedido personalizado, que pode ser feito remotamente pelo celular.

“Essa bancada didática serve para testar e validar o funcionamento de etapas de uma cadeia produtiva. Aqui, simulamos o estoque, a separação das peças, a montagem e a expedição”, aponta o analista.

Victor acrescenta que a identificação das cores utiliza inteligência artificial, com uma câmera integrada ao sistema robótico e um algoritmo programado no próprio dispositivo.

O robô posiciona a peça diante da câmera, e o computador industrial aciona a captura da imagem.

Na sequência, a imagem é processada, e o algoritmo compara a cor da peça com os padrões previamente definidos. Assim, é enviado o resultado ao computador industrial.

Se a cor corresponder à solicitada no pedido, o robô realiza a montagem. Caso contrário, devolve a peça ao estoque, solicita outra e repete o processo.

A demonstração apresenta um desafio das indústrias goianas: transformar conhecimento técnico em soluções para produzir com eficiência.

O percurso envolve formação profissional, desenvolvimento de equipamentos e avaliação de onde incorporar novas tecnologias.

À frente do Instituto Senai de Tecnologia em Automação, Joel Mário de Souza, de 35 anos, atua há 12 anos na área.

Engenheiro eletricista, ele explica que as necessidades apresentadas pelas empresas orientam a instituição no desenvolvimento de projetos para as indústrias

“Nosso trabalho é transformar desafios industriais em soluções tecnológicas. Desenvolvemos projetos que permitem automatizar processos manuais ou semiautomáticos, aumentando a produtividade, a precisão, a segurança dos trabalhadores e a competitividade das indústrias goianas,” diz.

Assim, essa aproximação entre instituições de ensino e empresas orienta projetos de automação a partir de necessidades da produção. É o caso do equipamento de secagem de sementes desenvolvido pela ALFIG com o Senai.

Outra trajetória é a da M6 Automação, fundada por um ex-aluno que passou a atender diferentes segmentos industriais.

Uso de IA avança na indústria brasileira

O uso de inteligência artificial nas indústrias brasileiras passou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024, um crescimento de 25 pontos percentuais.

Os dados são da última Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em setembro do ano passado.

O estudo abrange empresas das indústrias extrativas e de transformação com 100 ou mais pessoas ocupadas.

O levantamento apresenta o cenário nacional.

Conforme o IBGE, a IA foi a tecnologia digital avançada que mais cresceu no período, embora a computação em nuvem tenha permanecido como a mais utilizada, presente em 77,2% das empresas.

Na sequência, aparecem a internet das coisas, com 50,3%, a inteligência artificial, com 41,9%, e a robótica, com 30,5%.

Ao todo, 89,1% das indústrias abrangidas pela pesquisa utilizaram pelo menos uma das tecnologias digitais avançadas investigadas em 2024.
A aplicação da IA também se estende para além do chão de fábrica.

Como as indústrias utilizam essa tecnologia:

  • 87,9% na administração;
  • 75,2% na comercialização;
  • 73,1% no desenvolvimento de projetos de produtos, processos e serviços;
  • 52% na produção.

Isso demonstra que sua presença nas indústrias envolve tanto a gestão quanto as atividades produtivas.

Os custos e a qualificação profissional, porém, continuam entre os obstáculos à transformação digital.

Os dados mostram que os custos elevados e a falta de profissionais qualificados estão entre os principais obstáculos à adoção de tecnologias avançadas pela indústria.

Mesmo entre as empresas que já utilizam essas soluções, as barreiras permanecem.

Principais dificuldades apontadas pelas indústrias:

  • Altos custos das soluções: 78,6% das empresas que adotaram tecnologias avançadas e 74,3% das que não adotaram;

  • Falta de pessoal qualificado: 54,2% das empresas que adotaram e 60,6% das que não utilizam essas tecnologias.

Os percentuais indicam que os custos pesam nos 2 grupos, enquanto a falta de mão de obra qualificada é mais citada entre as empresas que ainda não adotaram as tecnologias pesquisadas.

Apesar das dificuldades, 97,9% das empresas que utilizaram tecnologias digitais avançadas relataram algum benefício.

O aumento da eficiência foi apontado por 90,3%, enquanto 74,7% indicaram maior capacidade de desenvolver produtos ou serviços novos.

Esses resultados abrangem o conjunto das tecnologias investigadas, e não apenas a inteligência artificial, o que evidencia o alcance da digitalização sobre diferentes atividades industriais.

Equipe do Instituto Senai de Tecnologia em Automação, coordenada por Joel Mário, observa braço robótico em operação no laboratório, em Goiânia | Registro do fotógrafo Wesley Costa

Equipe do Instituto Senai de Tecnologia em Automação, coordenada por Joel Mário, observa braço robótico em operação no laboratório, em Goiânia | Registro do fotógrafo Wesley Costa

Na ALFIG, fabricante goiana de equipamentos para o agronegócio, a parceria com o Instituto Senai busca tornar mais preciso o processo de secagem de sementes forrageiras, utilizadas na formação de pastagens.

A fabricante foi fundada por Lauriana Alves Figueiredo de Paula, de 41 anos, que também é sua diretora

“Então, assim, o tempo todo tinha que ter operador ali acompanhando o que estava acontecendo no processo. Então, a secagem é uma das etapas mais críticas de todo o processo de tratamento de semente,” pontua a empresária.

Para Joel Mário, a operação que se pretende automatizar depende de intervenções manuais. O controle inadequado da umidade e da temperatura pode comprometer a qualidade e a germinação das sementes.

O investimento previsto supera R$ 4,3 milhões, entre subvenção econômica da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e contrapartida da empresa. Lauriana Alves explica que o desenvolvimento envolve a integração dos sensores e da programação responsável pelos ajustes do processo.

A proposta inclui o uso de inteligência artificial para auxiliar no controle da secagem, mas o equipamento ainda passa por desenvolvimento e validação. Os ganhos esperados, portanto, dependem da conclusão dos testes.

“A automação elimina essa vulnerabilidade. Ela garante que a secagem vai acontecer dentro de parâmetros de precisão, sem depender da checagem visual do operador o tempo todo. O operador pode ir lá, ele deve continuar olhando o processo, mas ele não tem aquela necessidade de verificar a minuto a minuto”, compara Lauriana.

Ela relata que uma das dificuldades está na escolha de sensores capazes de realizar leituras confiáveis mesmo com a interferência dos materiais usados no revestimento das sementes.

A empresária também descreve a participação de operadores, técnicos e engenheiros na identificação de problemas e na proposição de melhorias.

Segundo ela, a experiência de quem trabalha com o equipamento orienta o desenvolvimento da solução.
Da necessidade ao projeto de inovação

Desenvolver uma solução como essa exige também capacidade para estruturar projetos e buscar financiamento. As dificuldades apontadas pelo IBGE encontram correspondência na avaliação do presidente do Conselho de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (CDTI) da Fieg, Luciano Lacerda.

De acordo com ele, pequenas e médias indústrias enfrentam limitações para estruturar projetos de inovação e buscar financiamento. Além dos recursos para investir, faltam equipes capazes de detalhar o problema, propor uma solução e justificar os resultados esperados.
O CDTI atua na aproximação dessas empresas com instituições que podem apoiar o desenvolvimento tecnológico.

Lacerda explica que o Senai dispõe de profissionais e infraestrutura para projetos de automação, enquanto a Fatesg reúne formação superior e desenvolvimento de soluções com inteligência artificial.

O Instituto Euvaldo Lodi (IEL), por sua vez, oferece apoio à elaboração de projetos para buscar recursos em instituições de fomento.

“Por isso que a gente criou até estruturas dentro do IEL da Fatesg, do Senai Hub para apoiar essas pequenas e médias empresas a desenvolver esses projetos para fazer aplicação”, salientou.

Lacerda lembrou que, neste ano, a Finep lançou um edital para selecionar projetos de desenvolvimento, principalmente nas áreas de inovação, voltado para a região Centro-Oeste.

“Foram aprovados 27 projetos, sendo que desses 27 projetos 12 projetos são de Goiás. Desses 12 projetos aproximadamente cinco projetos foram realizados em parceria entre a indústria e o IEL,” destaca.

Para orientar ainda mais a atuação das indústrias com inovação, Lacerda antecipa que a Fieg prevê lançar, em novembro de 2026, um questionário sobre a maturidade das indústrias no uso de IA.

De acordo com o dirigente, a entidade ainda precisa reunir informações concretas sobre a adoção da tecnologia e os desafios das empresas.

A proposta da federação é utilizar o diagnóstico para identificar demandas de formação, de desenvolvimento de projetos e de conexão com instituições de pesquisa.

Lacerda também ressalta que levar a IA ao chão de fábrica exige atenção ao desempenho e à segurança dos processos, uma vez que a aplicação na manufatura apresenta desafios diferentes daqueles encontrados nas atividades administrativas.

Nesse percurso, ele entende que o apoio técnico e a preparação das equipes ajudam a avaliar onde a tecnologia pode agregar valor e quais condições são necessárias para colocá-la em operação.

Da elaboração do projeto ao financiamento

Como mencionado, o apoio público é importante nesse percurso. Na ALFIG, segundo Joel Mário, o projeto de automação do secador de sementes prevê aproximadamente R$ 4,15 milhões em subvenção econômica da Finep, além de R$ 173 mil de contrapartida da empresa.

“Esse modelo de financiamento é fundamental para viabilizar projetos de inovação que exigem investimentos elevados e envolvem riscos tecnológicos,” avalia Joel Mário.

Para Lauriana Alves, o aporte permite enfrentar uma etapa de pesquisa e desenvolvimento que exige especialistas e componentes tecnológicos de custo elevado.

Em Goiás, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) também oferece instrumentos de incentivo à inovação empresarial. Um exemplo é o Tecnova III, que apoia o desenvolvimento de produtos e processos inovadores por meio de subvenção econômica.

O acesso aos recursos, porém, exige preparação.

Por isso, o apoio à construção dos projetos complementa a formação profissional e o desenvolvimento tecnológico: ajuda a transformar uma necessidade da produção em uma proposta que possa ser submetida às instituições de fomento.

Dário Siqueira, diretor da Faculdade Senai Ítalo Bologna, mostra outra bancada didática utilizada para integrar teoria e prática na formação em automação industrial | Registro: Wesley Costa

Dário Siqueira, diretor da Faculdade Senai Ítalo Bologna, mostra outra bancada didática utilizada para integrar teoria e prática na formação em automação industrial | Registro: Wesley Costa

A preparação das equipes é outra condição para que os projetos avancem. O diretor da Faculdade Senai Ítalo Bologna, Dário Queija de Siqueira, pontua que a proposta do Senai é oferecer conhecimentos para o ingresso na atividade industrial e para o desenvolvimento de novas competências ao longo da carreira.

Ele explica que o ensino fornece uma base técnica para que o profissional compreenda os recursos dos equipamentos e consiga aplicar esse conhecimento em diferentes situações. A atualização também alcança profissionais com experiência e formação superior.

Dário cita a possibilidade de um engenheiro ampliar seus conhecimentos em inteligência artificial para identificar aplicações nos processos industriais. Nesse sentido, cursos e especializações ajudam a aproximar a formação das demandas que surgem com a integração de máquinas, sistemas e dados.

O trabalho com as empresas também permite levar necessidades da produção para o ambiente de ensino e de desenvolvimento tecnológico.

Segundo o diretor, o apoio envolve formação profissional, consultoria e projetos de inovação.

Essa aproximação cria condições para que o conhecimento seja aplicado à solução de problemas concretos, como a modernização de equipamentos e o desenvolvimento de novas formas de produzir.

Da sala de aula à própria empresa

Um exemplo de quem passou pela instituição é Ricardo Silva de Menezes, de 39 anos, fundador da M6 Automação.

Formado em Automação Industrial pelo Senai entre 2006 e 2008, ele criou a empresa em 2009 e conta que aproveitou as disciplinas de administração para se preparar para empreender.

“A minha formação no Senai foi indispensável, e com certeza abriu muitas portas, tanto pela instituição em si, quanto pelos professores e colegas”, conta Menezes.

Em 2019, retornou aos estudos para uma pós-graduação na Fatesg. Atualmente, a M6 realiza projetos de automação, modernização de máquinas e montagem de painéis para diferentes segmentos industriais.

O aperfeiçoamento continua na rotina da empresa. Ricardo relata a participação em feiras, eventos, cursos de novos produtos e treinamentos de fabricantes.

Para o empresário, a frequência com que surgem equipamentos e tecnologias torna indispensável a atualização profissional.

Ele identifica na integração entre automação e tecnologia da informação uma das principais mudanças da área, ao permitir que os dados do chão de fábrica cheguem à gestão.

Na empresa, a IA já auxilia na organização de projetos, na escrita e na revisão de programas e na documentação elétrica.

Uso está no apoio ao desenvolvimento das soluções, sem que isso signifique sua presença nas máquinas entregues.

Como resume o empresário, a ferramenta permite ganhar tempo, mas “sem terceirizar a reponsabilidades”

Adotar IA é apenas parte do caminho

O avanço da inteligência artificial também aparece no levantamento global da McKinsey publicado em agosto de 2026.

Quase nove em cada dez participantes relataram uso regular de IA em pelo menos uma função de suas organizações.

Na manufatura, os relatos indicam aplicações em processos produtivos, cadeias de suprimentos e gestão de estoques.

A fabricação também aparece entre as atividades nas quais os participantes mais frequentemente apontaram redução de custos com IA.

Os ganhos individuais, porém, ainda não se traduzem na mesma proporção em resultados financeiros para toda a organização.

Enquanto 80% dos entrevistados disseram que a IA melhorou sua produtividade pessoal, 37% atribuíram à tecnologia alguma contribuição positiva para o lucro antes de juros e impostos das empresas.

A análise da consultoria mostra que as organizações com melhores resultados se destacam pela reformulação dos processos de trabalho, pelo compromisso das lideranças e pela medição dos impactos.

A conclusão reforça que a incorporação de ferramentas precisa vir acompanhada de mudanças na maneira de trabalhar e de avaliar os resultados.

Como exemplo, outro projeto demonstrado no Instituto Senai é para automatizar a dobra de gaze.

Essa tarefa que, segundo o setor, ainda é realizada manualmente, encontra-se em fase avançada de testes e atende a uma necessidade apontada pela indústria.

Da bancada apresentada por Victor ao equipamento em desenvolvimento na ALFIG e aos projetos da M6, o conhecimento técnico aparece em diferentes etapas da inovação.

A passagem para a produção depende de profissionais preparados, testes e condições para viabilizar cada solução.

É nesse contexto que se pode avaliar o que a tecnologia já entrega e o que ainda precisa ser comprovado.


 

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