Além dos consultórios: cooperativas de saúde ampliam impacto social em Goiás

Após enfrentar desafios desde os primeiros meses de vida, Gabriel coleciona conquistas no Espaço Bem-Te-Vi, da Unimed Goiânia
Após enfrentar desafios desde os primeiros meses de vida, Gabriel coleciona conquistas no Espaço Bem-Te-Vi, da Unimed Goiânia | Registro 📸 Ruber Couto

Leandro de Castro

  • Unimed Goiânia, Uniodonto e Coopanest-GO mostram como o cuidado ultrapassa a assistência médica e transforma realidades

Aos 7 anos, Gabriel lê, escreve, frequenta a escola e comemora notas que chegam a 10.

Para a mãe, Katiuscia Gomes, cada conquista tem um significado que vai muito além do boletim escolar.

Quando o filho ainda era bebê, ela ouviu de uma médica um prognóstico difícil: talvez ele nunca andasse, não conseguisse falar e apresentasse sequelas graves pelo resto da vida.

Hoje, ao observar o desenvolvimento do menino, Katiuscia encontra motivos para celebrar.

Parte dessa transformação passa pelo acolhimento, pelo acompanhamento especializado e pela estrutura oferecida pelo cooperativismo de saúde em Goiás.

A história de Gabriel é um exemplo de como a atuação das cooperativas pode ultrapassar os limites dos consultórios e hospitais.

Mais do que consultas e procedimentos, essas organizações também desenvolvem iniciativas que promovem inclusão, segurança alimentar, prevenção e assistência social.

Na prática, dão significado ao 7º princípio do movimento cooperativista: o interesse pela comunidade.

Em Goiás, experiências da Unimed Goiânia, da Uniodonto e da Coopanest-GO mostram como esse compromisso se traduz em ações que alcançam diferentes públicos e ajudam a transformar realidades.

Quando o cuidado muda uma história

Gabriel tinha apenas 3 meses e estava internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por complicações respiratórias quando Katiuscia ouviu uma previsão que nunca esqueceu.

A neuropediatra que acompanhava o bebê perguntou se ela pretendia ter outro filho.

Ao responder que não, recebeu da médica um prognóstico difícil de assimilar.

“Se conforme, mãe, porque essa criança não vai andar, não vai falar e vai ter sequelas graves para o resto da vida”, recordou Katiuscia, emocionada, ao Portal Folha Z.

O menino permaneceu quase 6 meses na UTI e recebeu alta com traqueostomia.

Em casa, passou a contar com estrutura organizada pela Unimed Goiânia, com enfermagem 24 horas, fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional.

Aos 2 anos e 6 meses, foi submetido a uma cirurgia para correção do palato e retirada da traqueostomia.

Katiuscia Gomes, mãe de Gabriel, acompanha e celebra os avanços do filho | Registro 📸 Ruber Couto

Katiuscia Gomes, mãe de Gabriel, acompanha e celebra os avanços do filho | Registro 📸 Ruber Couto

Com o encerramento do atendimento domiciliar, a família recebeu a indicação para o Espaço Bem-Te-Vi.

Gabriel chegou à unidade aos 2anos e 8 meses.

Na época, além das dificuldades motoras, tinha limitações importantes na comunicação e na interação com outras crianças.

“O Gabrielzinho não falava, tinha muitas limitações, não conseguia de forma alguma interagir. Hoje, ele aceita brincar com outras crianças, já fala de tudo. A evolução na escola também foi muito grande”, conta Katiuscia.

Aos 7 anos, Gabriel frequenta a 1ª série do ensino fundamental, está alfabetizado, lê, escreve e apresenta rendimento escolar acima da média.

“O boletim do Gabriel é 9,8, 10. Ele tem uma avaliação igual à de qualquer outra criança. O Bem-Te-Vi é o suporte que a gente precisava”, relata a mãe.

Para Katiuscia, cada avanço representa uma conquista que parecia distante nos primeiros meses de vida do filho. Para a cooperativa, histórias como a de Gabriel traduzem o propósito de oferecer assistência especializada e contribuir para a autonomia e a qualidade de vida dos beneficiários.

Atendimento multidisciplinar e acolhimento familiar

Espaço Bem-Te-Vi oferece atendimento multidisciplinar a crianças com TEA e outras necessidades do desenvolvimento | Registro 📸 Ruber Couto

Espaço Bem-Te-Vi oferece atendimento multidisciplinar a crianças com TEA e outras necessidades do desenvolvimento | Registro 📸 Ruber Couto

Inaugurado em abril de 2022 para atender beneficiários da Unimed Goiânia com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras necessidades relacionadas ao desenvolvimento, o Espaço Bem-Te-Vi oferece acompanhamento baseado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

A estrutura reúne mais de 95 profissionais de diferentes especialidades e conta com ambientes que reproduzem cômodos de uma casa e salas de aula.

Nesses espaços, são trabalhadas habilidades do cotidiano, interação social e autonomia.

Com aproximadamente 1.115 beneficiários e volume mensal de 8 mil a 11 mil atendimentos, o centro desenvolve planos terapêuticos individualizados.

A iniciativa também representa uma forma de promover inclusão e qualidade de vida por meio do cuidado especializado.

“A missão é oferecer o melhor tratamento e proporcionar um prognóstico satisfatório, assim como no caso do Gabriel, para que a criança conquiste independência”, destaca o coordenador da unidade, Neurimar Dias.

Neurimar Dias, coordenador do Espaço Bem-Te-Vi | Registro 📸 Ruber Couto

Neurimar Dias, coordenador do Espaço Bem-Te-Vi | Registro 📸 Ruber Couto

O acompanhamento também considera as próximas etapas da vida dos pacientes.

Por meio do Projeto VOE, pré-adolescentes e adolescentes participam de atividades para desenvolver habilidades sociais e se preparar para a inserção no mercado de trabalho.

O suporte se estende aos familiares, com o projeto Cuidar de Quem Cuida, que oferece acompanhamento psicológico individual e em grupo.

“Os pais têm angústias e questionamentos sobre como será o futuro dos filhos. Aqui temos esse suporte para acolher essas demandas e oferecer um atendimento humanizado”, explica o coordenador.

Prevenção odontológica também faz parte do cuidado

Iniciativa da Uniodonto leva consultórios móveis diretamente ao trabalhador | Registro 📸 Ruber Couto

Iniciativa da Uniodonto leva consultórios móveis diretamente ao trabalhador | Registro 📸 Ruber Couto

Se na Unimed Goiânia o atendimento especializado contribui para o desenvolvimento e a autonomia de crianças, na Uniodonto Goiânia o cooperativismo também se manifesta na prevenção e na promoção da saúde fora das clínicas.

Fundada em 1983, a entidade reúne mais de 430 cirurgiões-dentistas e atende cerca de 166 mil beneficiários em Goiás.

Uma das iniciativas voltadas à saúde bucal é o Projeto Diga Xis, que leva unidades móveis a empresas parceiras para oferecer exames e orientações de higiene oral aos trabalhadores.

No mês passado, a equipe esteve no Instituto de Oncologia Humana (Ingoh), em Goiânia, onde realizou 36 atendimentos ao longo de 3 dias, incluindo exames clínicos e profilaxia.

A gerente de Recursos Humanos do Ingoh, Indira Macedo, que também participou da ação, falou à reportagem do Portal Folha Z sobre a facilidade de acesso ao serviço.

“Na rotina corrida, a saúde bucal acaba ficando em segundo plano. Ter esse suporte gratuito dentro da empresa incentiva a prevenção e alivia o orçamento das famílias”, salientou.

Gerente de RH do Ingoh, Indira Macedo também participou da ação e destacou os benefícios para os colaboradores | Registro 📸 Ruber Couto

Gerente de RH do Ingoh, Indira Macedo também participou da ação e destacou os benefícios para os colaboradores | Registro 📸 Ruber Couto

Há 12 anos como cooperado e integrante da equipe itinerante, o cirurgião-dentista Eriberto de Souza ressaltou o alcance da iniciativa na promoção da saúde bucal dos trabalhadores e o papel da cooperativa na inserção de novos profissionais no mercado de trabalho.

Eriberto de Souza, cooperado da Uniodonto há 12 anos | Registro 📸 Ruber Couto

Eriberto de Souza, cooperado da Uniodonto há 12 anos | Registro 📸 Ruber Couto

“Não é comum ver a odontologia preventiva indo ao encontro do trabalhador na firma. Além disso, para quem está no início da carreira, a cooperativa oferece uma porta de entrada segura no mercado de trabalho”, pontuou.

Da saúde à segurança alimentar

UniHorta é reflexo de princípios cooperativistas e da agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) | Registro 📸 Uniodonto

UniHorta é reflexo de princípios cooperativistas e da agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) | Registro 📸 Uniodonto

O compromisso com a comunidade também se estende a necessidades que vão além da assistência médica e odontológica.

Na Uniodonto, essa atuação ganha forma na UniHorta, iniciativa ligada à agenda ESG e instalada no Plantão 24 Horas do setor Bueno, em Goiânia.

Com apoio técnico do Senar Goiás, o projeto utiliza a aquaponia, sistema que combina criação de peixes e cultivo de hortaliças orgânicas, e conta com cerca de 20 voluntários.

A produção, destinada a instituições sociais da capital, cresceu mais de 4 vezes em relação a 2025 e, até setembro deste ano, já havia beneficiado 375 pessoas.

Entre as entidades contempladas está o Solar Apóstolo Tomé, responsável pelo acolhimento de 40 idosos.

A presidente, Kariny Kansog de Andrade, explica que as doações ajudam a reduzir os gastos com alimentação e permitem direcionar recursos para outras necessidades dos residentes.

“Receber alimentos frescos e nutritivos fortalece nossa rotina de assistência e permite direcionar recursos para outras áreas essenciais”, sublinhou.

Produção de hortaliças orgânicas é destinada a instituições sociais de Goiânia | Registro 📸 Uniodonto

Produção de hortaliças orgânicas é destinada a instituições sociais de Goiânia | Registro 📸 Uniodonto

Para o vice-presidente da Uniodonto Goiânia, Fernando Georgeo, a iniciativa consolida o propósito de converter a participação dos voluntários em benefícios para a população.

“Cuidar dessa estrutura tornou-se um exercício de integração que gera resultados concretos para quem mais precisa. Expandir a produção foi a forma que encontramos de atender mais pessoas”, acrescentou.

Coopanest-GO fortalece o amparo social

Projeto Amparar distribui mensalmente cestas básicas e fraldas geriátricas a famílias em situação de vulnerabilidade | Registro 📸 Coopanest

Projeto Amparar distribui mensalmente cestas básicas e fraldas geriátricas a famílias em situação de vulnerabilidade | Registro 📸 Coopanest

Na Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas de Goiás (Coopanest-GO), o interesse pela comunidade se traduz em apoio direto a famílias em situação de vulnerabilidade.

Desde 2016, a entidade mantém o Projeto Amparar, que atende mensalmente 100 famílias com a distribuição de cestas básicas e fraldas geriátricas.

Em junho de 2025, a cooperativa criou o Instituto Coopanest, voltado à promoção do bem-estar social e do desenvolvimento sustentável por meio de iniciativas humanitárias, educacionais e ambientais.

Entre as medidas adotadas nessa última área estão o uso de energia solar, com uma usina fotovoltaica própria em funcionamento desde 2015, e a destinação de resíduos de papel à reciclagem.

Haroldo Maciel, presidente da Coopanest-GO | Registro 📸 Coopanest

Haroldo Maciel, presidente da Coopanest-GO | Registro 📸 Coopanest

De acordo com o presidente da Coopanest-GO, Haroldo Maciel, as ações acompanham a evolução do modelo cooperativo.

“Esse é um dos princípios do cooperativismo: devolver para a comunidade um pouco daquilo que ela nos proporciona. Nesse sentido, temos avançado muito na adoção de práticas de governança corporativa, buscando aperfeiçoar nossa gestão e fortalecer a atuação da cooperativa”, enfatizou.

Um movimento que transforma comunidades e movimenta a economia

O cooperativismo de saúde tem dimensão nacional e desempenha papel estratégico na assistência à população, na geração de empregos e no desenvolvimento econômico.

Os números do setor revelam a força desse movimento no Brasil.

Em Goiás, o cooperativismo de saúde também tem presença expressiva e contribui para a geração de empregos, o desenvolvimento econômico e a ampliação da assistência à população.

Os indicadores estaduais mostram a dimensão e a capilaridade desse setor no território goiano.

 

Para Luís Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB/GO, entidade que completa 70 anos em 2026, os indicadores refletem a capacidade do setor de fortalecer o acesso à assistência médica e contribuir para o desenvolvimento dos municípios.

“As cooperativas de saúde são essenciais, principalmente no interior goiano, porque unem profissionais em torno de um propósito comum: oferecer atendimento de qualidade, gerar desenvolvimento local e garantir que a população tenha acesso à saúde onde vive, perto de casa”, salientou.

Luís Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB/GO, destaca a contribuição das cooperativas de saúde para a economia goiana | | Registro 📸 OCB Goiás

Luís Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB/GO, destaca a contribuição das cooperativas de saúde para a economia goiana | | Registro 📸 OCB Goiás

O dirigente ressaltou ainda os avanços do setor e a capacidade das cooperativas de conciliar resultados econômicos e objetivos de interesse coletivo.

“Nossas cooperativas têm mostrado muita solidez e são sustentáveis, utilizando também a tecnologia para facilitar a vida dos seus usuários. Elas demonstram na prática como os princípios cooperativistas transformam vidas, ajudam pessoas e fortalecem as comunidades”, concluiu Luís Alberto.

Mais do que números, vidas transformadas

Os números mostram a dimensão econômica do cooperativismo de saúde.

As iniciativas desenvolvidas em Goiás, porém, revelam dimensão que não cabe apenas nas estatísticas.

Ela aparece no desenvolvimento de uma criança que conquistou a alfabetização, no trabalhador que consegue cuidar da saúde bucal sem sair da empresa, nos idosos que recebem alimentos frescos e nas famílias que encontram apoio para enfrentar situações de vulnerabilidade.

São diferentes formas de cuidado, conectadas por um mesmo princípio: a responsabilidade com a comunidade.

A história de Gabriel ajuda a traduzir esse propósito.

Para Katiuscia, acompanhar o filho lendo, escrevendo e conquistando autonomia é a resposta mais significativa a um prognóstico que um dia trouxe incertezas.

Para as cooperativas, é a demonstração de que seu papel na sociedade vai muito além da prestação de serviços.

É participar de histórias, abrir oportunidades e contribuir para que mais pessoas tenham condições de viver com dignidade.


 

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